O sentido do sintoma
Atualizado: 27 de ago.
Você já ouviu a expressão “silenciar para poder ouvir”?
Pode parecer contraditório. Em uma rotina cada vez mais acelerada, parar pode ser justamente o que nos permite perceber aquilo que, no excesso de tarefas e preocupações, acaba ficando em segundo plano.
Nem sempre conseguimos olhar para o próprio sofrimento. Continuamos trabalhando, cumprindo compromissos, cuidando dos outros e tentando dar conta de tudo, mesmo quando alguma coisa dentro de nós pede atenção.
Às vezes, aquilo que não encontra espaço para ser pensado ou colocado em palavras aparece de outras maneiras.
Pode surgir como ansiedade, irritabilidade, tristeza, dificuldade para dormir, cansaço, comportamentos repetitivos ou outras formas de sofrimento. Em algumas situações, também podem aparecer manifestações físicas que precisam ser compreendidas dentro de um contexto mais amplo, sem que isso signifique atribuir automaticamente uma causa emocional a um sintoma.
Quando algo pede para ser escutado
Vivemos cercados por estímulos, informações e exigências. Há pouco espaço para simplesmente parar e perceber como estamos.
Talvez por isso algumas pessoas só se deem conta de que algo não está bem quando o sofrimento começa a interferir na rotina, no trabalho ou nos relacionamentos.
O corpo pode participar dessa experiência, assim como os pensamentos, os sentimentos e os comportamentos.
O sintoma não precisa ser visto apenas como algo a ser eliminado. Ele também pode despertar perguntas.
O que está acontecendo comigo?
Quando isso começou?
Em quais momentos aparece?
O que eu sinto quando isso acontece?
Há algo que venho tentando evitar, suportar ou ignorar?
Essas perguntas não oferecem respostas prontas, mas podem abrir espaço para uma compreensão mais cuidadosa daquilo que está sendo vivido.
O que o sintoma pode dizer sobre a nossa história?
Cada pessoa encontra maneiras próprias de lidar com aquilo que a vida apresenta.
Algumas aprendem a seguir em frente mesmo quando estão sofrendo. Outras evitam falar sobre o que sentem. Há quem se cobre constantemente, quem tenha dificuldade de pedir ajuda ou quem permaneça em situações que já não fazem sentido.
Muitas dessas formas de lidar com a vida podem ter sido construídas ao longo da história de cada pessoa e, com o tempo, tornar-se tão familiares que passam despercebidas.
Por isso, compreender um sintoma também pode significar olhar para a pessoa que sofre, sua história, suas relações e o momento de vida que está atravessando.
Não se trata de procurar uma causa única para aquilo que acontece, mas de permitir que a experiência possa ser compreendida em sua complexidade.
Silenciar para poder ouvir
Silenciar não significa deixar de viver, abandonar responsabilidades ou simplesmente parar tudo.
Pode significar criar, por alguns momentos, um espaço em que seja possível perceber o que está acontecendo consigo.
Escutar uma tristeza.
Reconhecer uma angústia.
Perceber um cansaço que vinha sendo ignorado.
Questionar uma forma de viver que já não parece fazer sentido.
Dar lugar a algo que ainda não conseguimos nomear.
Talvez o silêncio não traga respostas imediatas. Mas pode permitir que algumas perguntas finalmente sejam ouvidas.
A psicoterapia como espaço de escuta
Na psicoterapia, aquilo que causa sofrimento pode encontrar um espaço para ser falado e pensado.
A partir da fala e da escuta, sentimentos, conflitos, experiências e formas de se relacionar podem ser revisitados e compreendidos dentro da história de cada pessoa.
O objetivo não é encontrar rapidamente uma explicação para tudo, nem transformar todo sintoma em sinal de um conflito psicológico.
É criar condições para que aquilo que está sendo vivido possa ganhar sentido e ser elaborado.
Às vezes, o primeiro passo não é encontrar uma resposta.
É conseguir parar por um instante e escutar a pergunta que o próprio sofrimento está trazendo.
O que o seu sofrimento tem tentado dizer?
A psicoterapia pode ser um espaço para escutar essa pergunta e compreender melhor a sua história.
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